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Escutem agora, meus irmãos, pois acabei de contar aqui os sofrimentos dignos de honra eterna pelos quais passou o vitorioso guerreiro São Jorge de nosso Senhor Jesus Cristo, mas devemos também considerar as exaltadas honras com que foi recebido no Paraíso pelo nosso Senhor Jesus Cristo. Ouçam então, ó amados, o que eu, Teódoto, vi com os meus próprios olhos e ouvi com meus próprios ouvidos.
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| São Teódoto |
Foi no tempo do imperador Teodosio, temente a Deus e de gloriosa memória, que no primeiro dia de seu reinado ele viu uma coisa maravilhosa. Ele viu São Jorge vindo dos céus em grande glória, e o arcanjo Miguel estava com ele. Teodósio estava sentado em seu trono real e sua fé em São Jorge era inabalável por todo o seu reinado. E nesse período de vinte anos de reinado, ele construiu uma enorme igreja com o nome de São Jorge e congregou ali todos os bispos à consagração do local. Ele chamou todos os bispos, inclusive a mim, um velho homem. Quando consagrou o local em nome de Deus e em nome de São Jorge, entoaram-se salmos em sua correta ordem, e o imperador e seus nobres homens e toda a cidade estiveram conosco.
E, quando todos nos sentamos, ele ordenou que fosse lido o martírio de São Jorge, pois aquele dia era o vigésimo terceiro de Pharmuthi, e ouvimos tudo com intensidade. No entanto, quando foi lido aquele trecho em que Deus testemunha a São Jorge, dizendo: "Não há ninguém como tu dentre todos os mártires, nem haverá ninguém como tu para todo o sempre", a frase me deixou confuso e eu disse comigo mesmo: "Já que tantos generais, eparcas e governadores deste mundo abandonaram toda a glória mundana, seus títulos, suas riquezas e morreram em nome do nosso Senhor Jesus Cristo sob o comando do ímpio imperador Diocleciano, como é possível que esse mártir sagrado seja mais exaltado que todos eles?".
Quando celebramos então a Sagrada Comu-nhão e a noite já se aproximava, acendemos uma lâmpada para o imperador e nos deitamos para dormir, mas nem o imperador nem qualquer dos outros haviam comido, e mesmo assim dormiram conosco na sagrada igreja. E já entrávamos no domingo, dia do Senhor, pois a consagração da igreja havia ocorrido em um sábado. Quando a noite enfim chegou e nós cumprimos as tarefas da noite, conforme planejado, dizendo "amém", nos sentamos para falar da grandiosidade de Deus e o imperador se aproximou de nós. E um de nossos padres, um bispo, foi levado aos céus em uma visão, e presenciou tantos mistérios que nem sequer cabem entrar em assuntos terrenos. E disse: "Eu me vi parado diante do trono do Pai, e vi milhares e milhares, e miríades e miríades orando à Santa Trindade, e vindo em bandos, todos para adorar a Deus, glorificá-Lo, receber Sua bênção e ter seus desejos realizados. E todos faziam fila e nenhuma criatura ter- rena seria capaz de descrever a glória e a grande honra que eles obtiveram da Trindade. E eu vi alguém vindo como um rei usando um diadema de ouro com sete coroas sobre ele, e ele estava montado em um cavalo branco e parecia tão iluminado como o Sol. Estava equipado de espada e armadura tal qual um rei, pleno de dignidade. Quando se aproximou, uma enorme multidão o seguiu de todos os lados e vi todos os santos se prostrando diante dele, e, quando eu também o vi, fiquei sem palavras e quis saber de quem se tratava. Olhei para a minha direita e vi um monge com asas como se fossem as de um anjo de Deus e usando uma coroa real, com um bastão dourado em sua mão direita. Sua feição exibia alegria e grande glória. E roguei a ele: "Rogo-te que me diga quem é em tamanha honra como esta". E ele me abraçou e disse: "Eu sou Paulo de Tamma, ó pastor de nosso verdadeiro Rei, nosso Se- nhor Jesus Cristo". E quando ele disse essas coisas, tomei-me de júbilo por ter conseguido me dirigir a ele. E disse: "Ó senhor, enquanto me tomar como digno de se dirigir a mim, eu te rogo quem é esse grande rei que acabou de surgir, e a quem toda esta multidão se prostrou". E o homem sorriu, dizendo: "Não sabe quem ele é?", ao que respondi: "Ó pai, como eu poderia saber quem é, já que nunca o vi antes?".
E ele me respondeu: "Fui enviado para es- clarecê-lo sobre as coisas que ponderou em seu coração desde o dia de ontem na igreja em relação a São Jorge, o amado de Deus, o mártir escolhido sobre todos os outros santos de acordo com as palavras do Senhor, Os trabalhos de cada alma que vem do corpo, sejam eles de homens corretos ou não, são manifestos em uma tábua espiritual e a alma está nele presente a todo momento, e seus feitos são escritos sobre ela, Quando quis meu Senhor Jesus Cristo que me levasse a meu local de descanso. Ele me estimou com toda a Sua bondade. E eu pude ver esse santo que com um diadema real com sete coroas sobre ele, que dizia: 'Eu sou Jorge de Meliteno, de Dióspolis, que morri três vezes em nome de nosso Senhor Jesus Cristo', e vi todos os santos se prostrando diante dele de joelhos. E eu também passei por muitos sofrimentos em nome do nosso Senhor Jesus Cristo e morri quatro vezes, e me perguntei: 'Não sou igual a ele em honra?' e me recusei a ajoelhar-me diante dele. E imediatamente Ele, que conhece o coração de todos os homens, enviou o arcanjo Miguel até mim, que disse: 'Ó excelente Paulo, por que não fez parte das saudações espirituais de acordo com o comando do Altíssimo?', e eu lhe revelei o que sentia. Ele então me levou ao confessor, que já havia sido tanto mártir como monge, e ele me mostrou a ordem de Deus. E disse: "Ó Paulo, vá e faça de acordo com o comando de Deus e não diga que sofreu tanto quanto o poderoso Jorge, pois é verdade que sofreu bastante, mas aquele santo homem sofreu em nome de Deus a dor do machado, do serrote, dos cravos, do fogo, da espada, das bocas de feras selvagens. Quando ouvi essas coisas, mudei de ideia e pedi perdão e prestei obediència aos comandos de Deus".
Enquanto Paulo falava comigo, São Jorge, o soldado de Cristo, aproximou-se de mim com a face iluminada de raios de sol, cumprimentou me e me encheu de ânimo e de satisfação, dizendo-me: "Quando for à sua cidade, Ancara, construa ali um tempo a mim, para que eu possa lá repousar na sua companhia, pois teremos ainda cento e cinco meses antes que venham até mim nesta cidade sagrada". Quando ele disse essas coisas, acordei de minha visão.
Quando o imperador e os doze bispos viram a face radiante daquele bispo que, sabiam eles, havia tido uma revelação, eles insistiram para que lhes contasse o que vira. E ele lhes disse tudo, para a maravilha de todos que ouviram, e glorificaram a Deus e ao santo mártir São Jorge. E o imperador respondeu, dizendo: "No dia em que Deus me colocou, por menos honrado que eu fosse, no trono romano, vi com meus olhos cheios de pecado São Jorge com uma feição gloriosa vindo dos céus segurando um cetro dourado na mão direita, e o arcanjo Miguel estava com ele. E eu vi um diadema também dourado com sete coroas por sobre a cabeça. E ele brilhava mil vezes mais que o próprio Sol, enchendo-me de alegria, quando me fez sentar no trono imperial, e um número enorme de nobres do exército o viram face a face. E o vi novamente em sua igreja sagrada, quando me mostrou coisas que fariam bem à minha alma".
Quando eu. Teodoto, ouvi essas coisas, abençoei a meu Senhor Jesus Cristo e a Seus santos mártires. Depois dessas coisas, o bispo foi à cidade e construiu uma linda e enorme igreja em nome de Deus e de São Jorge, consagrando-a com suas próprias mãos até que ele saiu de seu corpo. Aquele bispo era um dos trezentos e oitenta que se juntaram em Niceia, lotando o local por setenta e cinco anos. E morreu com Deus no coração quando tinha cento e oitenta anos de idade.
Amados irmãos, assim terminamos o relato dessas honrosas coisas que Deus preparou para o valente soldado e potente atleta São Jorge, cujo festival é celebrado neste dia por todos os céus e terra, para que a memória de sua glória e de seu poder seja exaltada no mundo todo a partir de Jerusalém, a cidade de Cristo Rei. E agora, amados e abençoados irmãos, já que sabemos que São Jorge se juntou a Deus dessa maneira e obteve liberdade para entrar na presença da Santa Trindade a todo momento e mostrar favor a qualquer um de nós, amem-se uns aos outros, sejam irmãos ou estrangeiros, sejamos inocentes, e São Jorge, amados irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, mostrará favor também a nós e terá compaixão de nós, perdoando nossos pecados e abençoando esta congregação de grandes e pequenos, velhos e jovens, viúvas e virgens. Por fim, que Cristo abençoe aquele que se encarregar de preparar este livro e o terminar com o verdadeiro firmamento em nosso Senhor, e que conceda grandes glórias em Cristo, em Seu Santo Pai e no Espírito Santo, agora e para todo o sempre, até a eternidade, amém.
Trecho da Elegia de São Teódoto, bispo de Ancira, em honra de São Jorge, o Vitorioso

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