Homilia de Met. Gabriel, de eterna memória, lida na Festa da Natividade de Nosso Senhor, no dia da sagração de nosso atual Arcebispo do Rio de Janeiro e Olinda-Recife, Chrisóstomo, ao episcopado.

Igreja Ortodoxa de Portugal e das Espanhas
ARQUIDIOCESE DE LISBOA
Mensagem de natal - 1991
Amados Irmãos, Irmãs,
Mais uma vez, com indizível Alegria, os cristãos se reúnem em suas igrejas para celebrar o Nascimento do Messias prometido pelo Senhor nosso Deus, através dos profetas, ao Povo Eleito
Ao invés das festas dos homens em que os festejados recebem presentes, as Festas da Igreja dão-nos a todos os homens em geral e a alguns em especial. Aqui, agradecemos a Graça imensa que foi e é para todos nós, o Santo Sínodo dos Bispos da Santa Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Autocéfala da Polónia ter eleito e Nós a grande e inesquecível Alegria de sagrarmos dois santos Presbíteros da Nossa Jurisdição como Bispos da Nossa Província Eclesiástica de Portugal, Espanha e Brasil. Foram eles o Senhor Dom João Ribeiro da Silva, Bispo de Silves e Portimão e que será Nosso Vigário Metropolitano, sagrado em 14 de Dezembro ultimo; e o Senhor Dom Chrisóstomo Muniz Freyre, Bispo de Rio de Janeiro e Olinda-Recife, que recebeu a imposição das mãos a 15 de Dezembro último, nesta Nossa Santa Sé, em Lisboa.
Para os novos Bispos, para os seus fiéis diocesanos que os esperam com real esperança e alegria mal contida, o Nosso ósculo de amor a selar a fraternidade e solidariedade que sempre houve entre nós e ousamos esperar continuará sempre orientando toda a nossa vida em Igreja vivida em Cristo Senhor nosso, que hoje encarna de uma virgem na pobreza, no silencio e no Mistério de Belém de Judá e em Judá-Belém de todos os nossos corações. A Igreja é vida e a vida continua a marcar em cada acto eclesial a assistência contínua do Espírito Santo à Igreja de Deus tal como o Senhor prometeu a Seus Apóstolos, antes de partir para o Pai
Num mundo em constante mutação, a Igreja surge como a estaca firme onde homens e mulheres, de Norte a Sul, do Nascente ao Poente, se podem agarrar, para que as suas vidas tenham um sentido, um significado e um denominador comum: levar todos a Deus com amor, por Cristo, com Cristo e em Cristo.
Os dias presentes não são somente de tristeza e de lamentação apesar de não se terem ainda erradicado neste nosso planeta a fome, a doença, a injustiça, a opressão e a violência, pois grandes passos esperançosos nos parecem estar a ser dados nesse sentido.
A Leste da Europa, finalmente libertada do monstro ciclópico e desumano que a oprimia, um raio de sol nasce e já é Esperança de vida nova – porque a vida tem futuro e o presente pode ser vivido em plena liberdade.
A Ocidente, outro monstro não menos feroz que o do Oriente mas bem mais perigoso ainda vive; todavia, já é portador do gérmen da sua auto-destruição não se adivinhando ainda quando o seu fim: é o capitalismo selvagem e desenfreado, gerador das sociedades consumistas falsamente justas e hipocritamente progressistas e renovadoras. Porém, a morte destes sistemas político-económicos é-nos já, com antecipação anunciada – e com que alegria registramos este facto em nossos corações humanos, que mais não esperam que o dia do seu enterro final.
Pousemos nosso olhar e abramos o nosso coração aos sinais que Deus nos envia através dos acontecimentos históricos que vivemos hoje. Sem sermos, desnecessariamente ingénuos e enfaticamente optimistas, numa leitura necessariamente rápida, constatamos o quanto o Senhor ama o Seu povo e faz nascer em nossos corações uma Esperança renovada, empurrados que somos por Ele para uma nova Era. Os homens não podem mais viver de costas voltadas; os homens não podem mais caminhar isolados; os homens começam finalmente a aprender que a nova Era os convida à partilha necessária e frutuosa desta Terra que recebemos como berço abençoado, onde Deus nos colocou a todos! Todos sem excepção!
A Igreja não pode ignorar os sinais dos tempos. É absolutamente necessário que a Santa Igreja Ortodoxa reúna os seus Bispos, finalmente num Concílio que leva já cinquenta anos de preparação. A Igreja não é do mundo, mas vive no mundo. É necessário que os homens que são irmãos sejam guiados por Bispos que aceitam os desafios da História, sabem interpretar os sinais de Deus e vivem entre si numa fraternidade que não é oca, esvaziada de conteúdo, mas real, efectiva e operante
O Menino que hoje nasce, para nós continua a ir à nossa frente, constantemente chamando-nos às nossas responsabilidades, marcando-nos as suas metas, ensinando-nos o Seu caminho. Podemos nós instalarmo-nos, comodamente, nos nossos Dogmas, nos nossos Cânones, como se tudo estivesse feito, realizado, esgotado e nada houvesse mais para fazer?
Podemos nós quedarmo-nos na Beleza bizantina das nossas igrejas embalados pelos belos cânticos litúrgicos, enquanto a vida real nos pode passar ao lado ou quedar-se na rua a viver sem nos?
Suponho que a resposta de todos é que não se pode viver em Igreja alheado da História e dos homens que a vivem. Pelo contrário! Nos somos intervenientes na História porque trazemos no nosso coração a Fé num Deus que é histórico.
Um Menino nos nasceu, um Filho nos foi dado... Como podemos nós ignorar esta certeza? – De forma nenhuma o poderemos fazer.
O Menino que nasceu em Belém é o nosso Deus, que Se quis fazer Homem por Amor aos homens que convida a todos os homens a que por Amor a Ele e em espírito de união uns com os outros, se tornem “deuses”.
Como poderemos deixar passar a vida ao nosso lado sem intervir nela? – Como poderemos deixar que a injustiça, a opressão, a violência, as lutas fratricidas, os golpes políticos existam, sem nos sentirmos co-responsáveis com tudo o que existe no mundo?
Natal, Natal de Jesus é chamamento à lucidez e à acção interveniente dos cristãos na História – a omissão é pusilanimidade, é pecado que devemos, precisamente porque o Menino nasceu como um Sol de Justiça para todos, evitar a todo o custo.
Aos mais desprotegidos, aos mais abandonados, aos mais necessitados, aos pobres, aos injustiçados, aos marginalizados Nós desejamos um Santo Natal, dizendo a todos que lá onde estiver um cristão ortodoxo lá têm um amigo.
Aos ricos, aos poderosos, aos beneficiados, aos privilegiados, Nós dizemos que Cristo, que nasce, nasce para todos e que eles nada mais são do que dispenseiros dos bens que Deus lhes deu para todos aqueles que necessitam deles
A todos os homens de Boa-Vontade e piedosas mulheres, jovens e crianças, desejamos um Natal cheio de Paz e Amor, vivido sempre com os olhos nos Céus, em Deus, e na Terra partilhando a fraternidade com todos os homens, em Cristo Senhor nosso, que sendo Deus vive, reina e triunfa com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amen!
+ Gabriel M.
a) METROPOLITA DE PORTUGAL, ESPANHA E TODO O BRASIL

Tropário de Natal:
O Teu Nascimento, ó Cristo nosso Deus, fez brilhar no mundo a luz do conhecimento. Nela os adoradores dos astros de um astro aprenderam a adorar-te, ó Sol de Justiça, e a reconhecer-Te como o Oriente vindo do alto. Senhor glória a Ti.
Kondákion de Natal:
Hoje a Virgem dá à luz o Eterno,
E a Terra é uma gruta ao inacessível!
Os anjos e os pastores louvam-No!
E os magos com a estrela avançam!
Pois Tu nasceste para nós,
ó menino, Deus pre-Eterno!
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